quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sob o Signo de “satanás”. Em minúscula! Ou: O “satanás” de Feliciano e o “diabo” de Dilma


A imprensa brasileira agora deu para grafar “satanás” em maiúscula. Deve ser para encarecer a gravidade do momento e a fealdade não do “tinhoso”, mas a do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), transformado no inimigo público nº 1 do Brasil por grupos militantes e por seus porta-vozes no jornalismo. Em tempo: “satanás” é substantivo comum. Tanto é assim que existe até plural: “satanases”. O dicionário registra 138 sinônimos para o diabo, tal é a frequência do tinhoso no vocabulário, ora como metáfora, ora como metonímia, quase sempre significando “o inimigo”.

Escrevi “diabo”? Pois é… Há alguns dias, na Paraíba, a presidente Dilma Rousseff confidenciou: “(…) nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição (…)”. Ninguém se importou. Poderia ter dito: “Nós podemos fazer o satanás quando é hora de eleição”. Ou ainda: “Nós podemos fazer o demônio quando é hora de eleição”. E teria dito sempre a mesma coisa. Não entendi que a presidente estivesse confessando a adesão a alguma seita satânica. “Diabo”, no seu vocabulário, queria dizer o vale-tudo, a ausência de limites, a adesão a comportamentos pouco ortodoxos que até ela própria, intimamente, reprova.

Depois de admitir “fazer o diabo” nas eleições, a presidente emendou: “Agora, quando a gente está no exercício do mandato, nós temos que nos respeitar (…)”. Qualquer amante da língua indagaria se, durante a disputa, o respeito é, então, dispensável. Olhem aqui: eu e mais uns dois ou três enroscamos com a fala da mandatária. Boa parte do jornalismo preferiu deixar o diabo de lado, dando destaque não aspecto virtuoso da fala presidencial: Dilma estaria querendo dizer que o governo não discrimina ninguém e que é preciso união.

Fui acusado por um desses imbecis de plantão de distorcer a fala da presidente, dando excessivo destaque ao que era linguagem figurada. Ora, claro que era linguagem figurada. Eu me importei com a fala justamente porque a figuração não era boa. Atenção! Dilma confessou “fazer o diabo” num ato político. Estava sobre um palanque, na presença de um prefeito de capital e de um governador de estado. Falava como presidente da República, investida do cargo, num ambiente público. Tudo certo! “Eles” podem tudo, e, se alguém estranhar, só pode ser por reacionarismo.

Agora o satanás
Num culto numa cidade mineira, depois de enfrentar protestos e xingamentos, o “pastor” Feliciano — e aí falava como pastor, num culto privado de uma denominação religiosa — afirmou que, antes de sua chegada à Comissão de Direitos Humanos, ela era dominada por satanás ou coisa assim.

Dilma, que é presidente da República, confessar que aderiu às práticas do “diabo” — e ela confessou! — foi considerado coisa normal, mero exagero retórico. Já um presidente de comissão da Câmara, falando como pastor, não pode afirmar que rechaçou “satanás” — ou que o zarapelho dominava a comissão. Dilma pode usar o diabo como metáfora, mas o satanás como figura de linguagem tem de render a guilhotina a Feliciano. É um debate ridículo!

Truque
Incapazes de provar que o deputado praticou a tal homofobia, incapazes de demonstrar que ele foi racista, resta agora um truque novo: recorrer ao Conselho de Ética da Câmara, acusando-se de quebra do decoro. Por quê? Por causa de sua fala sobre… satanás! A deputada petista Iriny Lopes (ES) se encarregou da tarefa. É aquela que, quando ministra das Mulheres, resolveu enroscar com uma propaganda estrelada por Gisele Bündchen porque supostamente depreciativa para as mulheres. Confundia humor com proposta política. Aliás, os humoristas podem se preparar, reitero, para o “Controle Social da Piada”. Se acham que grupos evangélicos e católicos que protestam são expressões do atraso, talvez tenham a chance de experimentar as graças de um estado oficialmente ateu…

Em entrevista à Folha e ao UOL, Feliciano aumentou o fogo da fervura. Afirmou que não iria a uma reunião de colégio de líderes porque seria achincalhado. Os próprios deputados do PSC se mostram incomodados com as duas falas. Há a possibilidade de que Feliciano esteja forçando a barra para ser destituído por alguma forma de golpe na comissão — única maneira de tirá-lo de lá se ele não renunciar. A outra é o caminho de Iriny, que quer simplesmente cassar o seu mandato. Seria o primeiro parlamentar cassado por delito de opinião sem a ajuda do… AI-5.

Feliciano não é besta nem nada. Enquanto estiver na comissão, deve ter claro que haverá pessoas gravando os cultos de que participa. Tudo o que disser, metáfora ou não, será usado contra ele. As intervenções de seus assessores e de pessoas a ele ligadas nas redes sociais serão monitoradas. Um deles postou em algum lugar que o destino de crianças adotadas por homossexuais é o estupro. Novo escarcéu nos sites noticiosos. Querem que ele responda por isso também. Só José Nobre (PT-CE), irmão de José Genoino (PT-SP), um dos condenados da CCJ, não é obrigado a responder pela cueca do assessor lotada de reais e dólares.

A palavra “satanás”, o substantivo comum, quer dizer “inimigo”, “aquele que arma ciladas”. Acho que Feliciano já sacou quem são os seus satanases, uma vez que passa pelo maior processo de satanização por que passou um político em muitos anos.

Poucos se dão conta de que, em janeiro do ano passado, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) anunciou, no Fórum Social Mundial, que a próxima grande tarefa do PT era disputar influência com os evangélicos. Eis aí.

Por Reinaldo Azevedo

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