domingo, 6 de julho de 2014

Falando Abertamente Sobre Masturbação


Uma das perguntas recorrentes nas palestras que faço com jovens é: “Masturbação é pecado?” Sendo assunto tão presente em encontros com jovens, me sinto “obrigado” a tratá-lo aqui, e meu desejo é poder ajudar na solução do problema, e não, agravá-lo. Disse Jesus: “São os doentes que precisam de médico, não, os sãos.”


Masturbação é uma palavra composta por dois termos menores: Mas + turbação. “Más”, de mal, que é algo que causa um dano. No presente caso, um dano a si mesmo. E “turbação”, que é algum abalo psicológico que lhe causa desassossego, inquietação, agitação. Traduzindo de forma mais simples, “turbação” é um processo caracterizado por maus pensamentos que afetam a estabilidade emocional.


No meio cristão, por desconhecerem do assunto e, muitas vezes, esquecerem de nossas tribulações quando mais jovens, alguns tem dito coisas sem sentido, agravando o problema e, não, ajudando na solução. Certa feita, numa classe de Escola Bíblica Dominical, um jovem líder afirmou: “Quem se masturba mantêm relação sexual com demônios”.


Achei, no mínimo, uma afirmação estranha, pois, nunca tinha ouvido esta constatação. Como não sou “especialista em demônios”, até hoje tento entender qual a fonte de onde aquele jovem retirou esta conclusão. Da Bíblia, até onde sei, não foi (se alguém souber algum texto que se reporte a isso, por favor, me informe). Lembrei-me de uma cena do filme sobre Martinho Lutero (reformador protestante do séc. XIV / XV) onde ele dizia estar lutando contra “seus demônios”. Pode ter sido daí.


Outro exemplo, desta feita, teológico, é a afirmação de que masturbação é “onanismo”. Onanismo é como ficou conhecido o ato de desobediência de um homem chamado Onã, quando se recusou suscitar descendência para seu irmão morto, derramando sêmen na terra ao manter relação sexual com a viúva. A partir daí, concluem que a masturbação é pecado pelo fato de “derramar sêmen na terra”. É, a meu ver, um engano teológico resultado da má compreensão do texto bíblico.


A primeira regra básica da hermenêutica é “deixar que o próprio texto se explique”. Então, vamos a ele.


Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou (Gn. 38:8-10).


Como se lê, o que levou Onã a morte não foi o ato de derramar sêmen na terra, e sim, sua desobediência a Lei do Levirato (quando algum homem morria deixando sua mulher sem filhos, seu irmão a tomaria e geraria nela filhos que eram considerados do irmão morto). Ele desobedecia, deliberadamente, a ordem divina de suscitar descendência a seu irmão, por causa de ciúme e egoísmo. Outra vez. Não foi o ato físico, foi o ato íntimo de desobediência.



Portanto, “onanismo” tem mais a ver com “coito interrompido” (que não é a razão da morte de Onã, como visto acima) que com “masturbação”. Assemelhar um com o outro não é, nada mais, nada menos, que um equívoco, um erro teológico.


Poderia, ainda, discordar dos que fazem este tipo de ligação (masturbação/onanismo), no que diz respeito a semelhança no derramar sêmen na terra. Já imaginou quantos jovens não amanheceriam mortos após a “polução noturna?” E o que dizer das mulheres que morreriam, também, por se lavar após o ato sexual? Quando se lavam não estão retirando sêmen, depositado nelas por seus respectivos maridos, e lançando “na terra?”


Ultrapassadas essas etapas, se faz necessário compreender, então, que a “masturbação” é o ato de provocar prazer sexual a si mesmo. Para as pessoas que se vêem envolvidos com este problema, esquecendo a questão meramente física, trata-se de “maus pensamentos que afetam nosso equilíbrio emocional e espiritual”. Destaque-se: “o problema maior não está localizado na “região sul”, mas, sim, na “região norte” (se é que me faço entender)”.


Ninguém se masturba pensando num repolho. Seus pensamentos e fantasias estarão ligados as práticas sexuais que o estimulará, num crescendo, ao orgasmo. Quais as imagens e pensamentos permearão sua mente? Em sua carta aos Gálatas (5:22), o apóstolo Paulo inclui na lista das obras da carne a “lascívia”, que vem a ser “uma entrega inconseqüente aos prazeres carnais”.


Para o jovem cristão, o presente século é um terrível teste para manutenção de sua castidade e pureza diante de Deus. Vivendo numa sociedade onde a vulgaridade e a sensualidade exacerbada são “defeitos” elevados a categoria de atributos importantes, seus instintos sexuais são diuturnamente despertado e estimulado para prática do pecado da prostituição, do adultério e de outras imoralidades sexuais. Estas tentações, quando atendidas, se tornam parte do pecado da lascívia (Mc. 7.21-23; Gl. 5:19; 1 Ts. 4:5; Cl. 3:5,6).


O instinto sexual é natural, porém, Deus nos concede o poder de fazer a coisa certa, na hora certa, da forma certa e, se tratando de sexualidade, com a pessoa certa. Sendo seres racionais e capazes de gerenciar nossa própria vida, temos todas as condições para exercermos o autocontrole. É o que a Bíblia chama de “temperança”, ou, “domínio próprio” (Gl. 5:22), que é ”a virtude de quem modera apetite e paixões.” É esta condição que nos impede de executarmos vingança contra aqueles que nos provocam ira.


Há, porém, de se constatar que “nossa” relação com Deus é um caminho tortuoso com altos e baixos, onde, quando pensamos estar fortes, vencemos todas as nossas tentações e, quando pensamos estar fracos, perdemos todas as lutas. O jovem deve esmerar-se em todo tempo na manutenção de uma vida casta durante esta bonita fase de sua vida. É o que a vida cristã lhe exige e oferece. Devemos reconhecer não ser fácil, mas, é possível.


Antes de prosseguirmos, deixe-me tratar de algo que julgo, também, importante, que é a questão da confissão. Muitas pessoas vivem agonizando por se sentirem constrangidos com a imposição de confissão a pastores ou líderes desse seu pecado. Precisamos saber que a confissão de pecado tem como objetivo sanar um dano causado à alguém. Desta forma, é importantíssimo compreender à quem causamos danos com nossos pecados (a si mesmo, a família, ao próximo e a igreja), para que saibamos a quem confessá-lo, requerendo seu perdão.


Primeiro, todo pecado praticado é um dano causado a santidade de Deus. Logo, todo pecado deve ser confessado ao Senhor. Isto se faz na intimidade de nosso quarto ou na intimidade de nossas orações na igreja. Há pecados, no entanto, que são públicos e tem como alvo do dano pessoas e instituições. Por exemplo, o pecado de adultério causa danos ao cônjuge, a família e, sendo um cristão membro de uma comunidade cristã, a imagem da igreja que ele faz parte. Logo, todos os membros da mencionada igreja sofrem um dano indireto. Nesse caso (adultério), o pecado deve ser confessado ao cônjuge, a família e a igreja, além de Deus, como anteriormente dito.


Se tratando de masturbação, o pecado é um ato isolado e secreto. O dano é causado a si mesmo e a santidade de Deus. Assim sendo, a confissão deve ser a Deus. Nesse caso específico, pode o pecador recorrer á sua igreja, na pessoa de seu pastor, ou algum irmão ou irmã experiente e maduro, para contar com seu auxílio, na oração e aconselhamentos, que o ajudem a superar o problema.


Infelizmente, alguns pastores não encontram tempo, nem tem compreensão adequada sobre este assunto, e quando se vêm diante de jovens que confessam este tipo de pecado, não sabem lidar com ele. Aprenderam que o único remédio é suspendê-lo das atividades e da comunhão da igreja, lançando-o ao isolamento e ao deserto, onde ele será tentado com mais intensidade. O que acontece, na maioria das vezes, é que as pessoas não saram. Permanecem com a ferida aberta, sofrendo pela demora em cicatrizar-se. Quando uma pessoa confessa um pecado, ela não precisa de isolamento, ela precisa é de um amigo companheiro que a ajude. Não é isso que Jesus nos faz? (Lc. 19:5; Mt. 9:12).


Como o maior problema está ligado ao que se passa na mente, podemos recomendar ações que ajudam a resolver o problema, ou no mínimo, minimizá-lo. Um dito popular, de autor desconhecido, diz: “Maus pensamentos são como passarinhos. Você não pode impedir que eles sobrevoem sua cabeça. No entanto, você pode impedir que eles pousem e façam ninho.”


O que uma pessoa (adolescente, jovem ou adulto, homem ou mulher) pode fazer para superar seu vício incontrolável de masturbação?



  1. Mantenha a calma. Nenhum pecado é forte o suficiente para impedir que a graça de Deus seja derramada sobre sua vida (Rm. 5:20; 8:38). Viva um dia de cada vez. Lembre-se de que o mais importante é como vai seu coração (Sl. 51). Se ele estiver inclinado sinceramente para Deus em temor e quebrantamento, o Senhor caminhará junto com você até que superes esta dificuldade. Ele não abrirá mão de você por causa disto. Sei que alguns se tornam recorrentes. Vão bem até que um dia... fazem de novo. Mesmo assim, NÃO DESISTA. Levante-se e comece de novo, pois, “o justo cairá sete vezes e se levantará” ou “o Senhor sustenta todos os que caem, e levanta todos os abatidos” (Pv. 24:16; Sl. 145:14).
  2. Não se isole. “A sensação de estar só é um estímulo a mais para fazer coisas erradas”. Participe de uma igreja genuinamente cristã e, nela, participe de grupos pequenos como departamento de jovens e adolescentes. Eles são compostos de pessoas iguais a você e, muitos deles, possuem a mesma dificuldade. O companheirismo e a ajuda mútua agregam mais capacidade para vencer as tentações (Gl. 6:2). É fundamental que você se envolva ativamente com as atividades dos jovens na igreja. Procure seu líder, diga que deseja ajudar. A Escola dominical também é uma excelente fonte de atividades que você pode desenvolver e, assim, ocupar seu tempo com coisas produtivas que, por sua vez, diminuirão o espaço para que você volte a prática da masturbação.
  3. Evite filmes, novelas, músicas e imagens de conotação pornográficas. Uma das verdades que Jesus disse, foi: “a candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mt. 6:22,23). Lembre-se: Como você não é casado, não é tempo de acender o “fogo” da paixão sexual que só deve ser aceso quando se tem como apagá-lo. Quando você acende o fogo da paixão sem estar pronto para apagá-lo, serás tentado a fazê-lo artificialmente ou ilegitimamente. O apóstolo Paulo chama isso de “viver abrasado” (1 Co. 7:9).
  4. Jejue. Quando jejuamos interrompemos a ingestão de alimentos que serão transformados em energia corporal. A força na juventude se caracteriza pela produção de hormônios naturais (testosterona (rapaz) e progesterona e estrógeno (moça)) que são responsáveis pelo desenvolvimento das características sexuais e amadurecimento físico da pessoa humana, incluídos aqui, a libido (energia motriz dos instintos e desejos sexuais). O jejum ajuda no controle destes instintos naturais e, espiritualmente, concede força para vencer as tentações. Cuidado apenas com o exagero. A quantidade de jejum e o tempo de cada um deles, não podem prejudicar sua saúde física e mental. Como disse o poeta romano Juvenal, “Mens sana in corpore sano”. Nosso desejo é “uma mente sã num corpo são”.
  5. Encha a tua mente com a Palavra de Deus (Sl. 119:9). Para vencer os maus pensamentos que insistentemente vêm sobre nós, é preciso encher a nossa mente com a Palavra de Deus (Ef. 6:17). Quanto mais lemos a Bíblia, mais lembraremos os seus ensinos. Quanto mais nos lembramos dos seus ensinos, mais esquecemos os estímulos que nos lança para a prática da masturbação. Paulo recomenda: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Fp. 4:8).
  6. Por fim, ore. Desenvolva a prática de conversar com Deus. Ele é nosso pai. O melhor pai que o ser humano pode experimentar. Esconder d’Ele, ninguém consegue. Então, o melhor caminho é sinceridade diante d’Ele, compreensão e aceitação do problema que te afeta e seu desejo de superá-lo. Não há nada que uma boa conversa com Deus não possa resolver (1 Pe. 5:7). Só aconselho a não conversar com Deus temerosamente. Converse humildemente com Ele, aceitando graciosamente Seu favor, Sua compreensão, Seu carinho e Seu amor.
 Alguns se sentem cumprindo sua missão, sobrecarregando as dores das pessoas. Ao contrário. Compreendo que o Senhor veio para que nosso jugo seja mais suave e nosso fardo seja mais leve. Entendo que “diminuindo o tamanho do “bicho”, se torna mais fácil vencê-lo”. O poder pertence a Deus e mais ninguém. Assim sendo, quem se inclina para ele, não se torna prisioneiro do mal.


Finalmente, espero ter colaborado com aqueles que vivem a angústia dos desassossegos provocados pela força das paixões naturais degeneradas pela queda da humanidade. Espero aliviar dores e apontar o bálsamo da graça divina, que é fruto do grande amor de Deus para conosco, como solução para os problemas que afetam o viver cristão e, por fim, toda a humanidade.