quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Uma Família na Qual Vale a Pena Pertencer

Bom seria que vivessemos felizes, desfrutando de todo conforto, alegria e sossego que o dinheiro pode nos dá. Para mais de 90% dos brasileiros isso é sonho, utopia até. O dinheiro recebido por 30 dias de árduo trabalho, chega ao fim do mês, sobrando mês e faltando dinheiro. Mas, há um lado bom nas dificuldades, no sofrimento que somos obrigados a encarar. É através das adversidades que mostramos nossa cara, nosso caráter, nosso valor.

Minha família é grande (Maior que esse  texto). E como é bom pertencer a uma família grande. Sem me prender a detalhes, éramos quatorze (minha mãe, meu pai, eu, meu irmão, o outro meu irmão, o irmão do meu irmão, o outro irmão, o irmão desse irmão, a irmã, a irmã dessa irmã, minha irmã, e outra irmã, e a irmã da minha irmã...) e hoje somos em TRINTA E DOIS!!! Mãe, filhos, filhas, cunhados, cunhadas, netos, netas e bisneta. É gente!

Comunicação ruidosa, fácil e difícil, gerando compreensão e incompreensão, promovendo união e desunião, companherismo e entrevero. Tanta gente diferente que um mesmo olhar pode significar aprovação ou desaprovação, carinho ou agressão, daí, uma família grande como esta manter-se unida em torno de algo comum, é extremamente difícil.

Todavia, quando nos concentramos num bem comum, num alvo amorosamente escolhido e compartilhado, conseguimos superar as diferenças e agirmos com um só coração e um só espírito (não seria esta uma prova de que brigamos por pouco? por coisas sem real valor?).

O ambiente não era dos melhores, mas, era o que tínhamos para lidar. Meu pai vivendo seus últimos dias, tendo em seu entorno esta grande família. Unida, empenhada, contida, suportando e se suportando, todos envolvidos no objetivo comum de dar ao nosso velho as melhores condições para finalizar sua jornada terrena.

Ví minha família real, não aquela subjugada pelas sensibilidades exacerbadas, pelas guerras infames, pelo ódio infernal, pela desconfiança vulgar, pela inveja mesquinha ou pela indiferença incompreensível. Vi uma família solidária, de pouca força, é bem verdade, mas, altruísta, cabeça erguida como quem sabe o que fazer, e bem fazer.

Permitam-me tratar pelos nomes de infância ou apelidos carinhosos (isso facilita bastante!)

SeuDéo foi determinado. Incompreendido, muitas vezes, pela aparente insensibilidade. Mas, ele precisou ser duro consigo mesmo para conduzir nossa família nesse momento difícil. E conseguiu ser o "mais velho - primogênito" de sua prole que, acredito, meu pai sonhava;

Vado foi um aliado conquistado, não menos sofrido. Foi acompanhando tudo de longe, de meia distância, de perto... Foi percebendo aos poucos o momento crucial e não se absteve. Do seu jeito, carregou, comprou, limpou, encarou as dificuldades e as dores lado a lado. Companheiro;

Zildinho, o pastor novinho, que respirava com dificuldade procurando abrigo para a dor do coração. Ver o velho, seu nome, sua essência, se despedindo da vida ao som de um violão. E ele canta... Com seu velho pai, ele se despede numa canção;

Tito, o pastor vizinho, presença constante física e familiar. Entrava, olhava, acariciava, tentando reanimar nosso velho num toque, numa conversa carinhosa, numa oração. Saía, sofrendo a dor da despedida iminente;

Detinha, contida, envolvida, chefe do hospital, da enfermaria, do pronto atendimento que está à disposição do paciente onde e quando ele chamar. Assume a guarda e a responsabilidade pelo bem-estar do velho e da velha, não se descuidando nem da higiene hospitalar. Gritar, não podia. Tinha que segurar e apenas se dedicar a arte de servir;

Lucinha é um turbilhão de emoções (para o bem ou para o mau), pronto para explodir a qualquer toque, ou insinuação. É a válvula de escape das nossas emoções que se consolida nela. Sofreu desesperadamente. Mas, Lucinha foi mais. Ela é a cozinheira hábil, dedicada, nutricionista encarregada da alimentação do paciente, do corpo ambulatorial e dos demais servidores. Parou de comer? Não foi por falta de alimento. Lucinha está lá. Tem um prato em suas mãos pronto para servir.

Eli é o mordomo fiel, o fiel escudeiro. Motorista, ajudante, servo dedicado ao trabalho ininterrupto que não se exime do dever... e da compaixão. Foi os braços e as pernas dos nossos velhinhos durante as idas e vindas ao médico, a fisioterapia. Dedicação exemplar, carinho singular;

Girl foi a expressão da dor e do sofrimento. Trazia no rosto a carga da surra que a vida nos dava. Meu pai viu e sentiu o sofrimento da família na face da caçula. Amor, carinho, sensibilidade, sofrimento e dor misturados no ritmo do ocaso.

Mas, não terminou aí...


Patrícia, Neide, Guacira e Marizete fizeram parte daquela equipe que, a priori, ninguém percebe. Apenas os respectivos esposos sabem o apoio importante que deram. Mas, além disso, foram solidárias, atenciosas e amorosas, procurando ajudar como podiam. Saliente-se e, justiça seja feita, Neide e Guacira deram uma mão grande na limpeza. Esmero;

Valdo e Daniel foram os "companheiros do velho nos últimos dias" (parece nome de igreja). No caminho à igreja ou na mesa de jantar, foram a voz que dialogava e os ouvidos que se disponibilizavam para ouvir o que nosso velho tinha a dizer. Sofreram, cada um do seu jeito, e com a dignidade de quem reconhece o valor de um sogro/pai, se mantendo atentos e irmanados no cuidado e no desejo de superação deste tão duro processo.

Vínicius, Samantha, Ingrid, Yasmin, Milena e Talita fizeram parte da equipe médica que, transcendendo a relação avô/neto(as), se sucederam no apoio e nos cuidados ininterruptos que o paciente precisava. Foi exemplo da equipe nota 10. Dia e noite se revezavam no asseio do paciente, no controle da pressão arterial e temperatura, na observância dos horários para medicamentos, no socorro ao paciente para mudar de posição, enfim, uma equipe dedicada, atenciosa e qualificada (Vinícius - biologia; Samantha e Milena - enfermagem; Ingrid - Medicina). Amor sacrificial que com amor altruista se paga;

Netinho, Juliane e Kilane, num abraço, num afago, num copo com água e na tigela de alimento que conduziam da cozinha para sala, pro quarto, no apoio para levantar, na arrumação da almofada, ou somente na voz que repetia: "Vô?", o amparo emocional que fez toda diferença na construção das vitórias diárias necessárias.

Mirela, Tarsila, Renan, Daniel Júnior, Alana, Maria Antonia e Karem, limitados pela idade e, consequentemente, pela dificuldade na real compreensão daquilo que nos envolvia, se alternavam em, apenas com a presença, arrancar um sorriso, um "Deus te abençoe" ou um beijo do seu velho avô. Apenas, e tão somente o futuro, poderá explicar-lhes o drama e convencê-los do valor que, todos, avô/netos/bisneta, perderam;

É, realmente, uma família e tanto! É o resultado do Sl. 128 que impera sobre um bom homem: "...teus filhos, como brotos de oliveira à roda da tua mesa" e "...verás os filhos dos teus filhos" (v.6).

Meu pai pode ter visto o resultado do trabalho de suas mãos e ficado satisfeito.

Não, não me esqueci. MÃE é para um texto a parte (Em seguida, neste blog).

Eu?

Quem lê o meu blog sabe que já a algum tempo sofro (Aqui e Aqui). Desde que recebi a notícia do câncer de próstata, percebi ser um caminho sem volta. A partir de então, muitas noites foram recheadas com lágrimas. Quando tinha forças, ia à casa de meu pai apenas para sentar ao seu lado e abraçá-lo. Outras tantas vezes tentei acompanhar o ritmo dos outros e, quando não conseguia, fugia. Sim, muitas vezes, fugi.

Por vezes tentei levar uma vida como se tudo estivesse bem, normal. Impossível. Sempre me surpreendia com a imagem, a ideia, a sensação, a dor e a constatação que a vida terrena não é interminável e que, para meu velho, era o início do fim. Se tratava do nosso amado pai.

Pai a gente só tem um e apenas uma vez na vida.

Quando noto a dedicação e as obras de cada um, me reduzo apenas a tentativa de ajudar. Tentei ajudar desesperadamente e, inconscientemente, adiar. Mais. Sinto que o pouco que fiz, fiz muito pouco. Mas, agora, me cabe o registro, o reconhecimento do esforço, do empenho e do trabalho de cada um.
SeuDéo, Vado, Zildinho, Tito, Cazil, Lucinha, Eli, Girl, Neide, Guacira, Patrícia, Marizete, Daniel, Valdo, Samantha, Vinícius, Yasmin, Ingrid, Juliane, Kilane, Renan, Maria Antonia, Talita, Tarsila, Netinho, Karem, Milena, Mirela, Daniel Júnior e Alana, se puder ter um pedido atendido por Deus, peço:
"Que Ele abençoe e recompense a cada um, segundo a medida da fé, do coração e das obras oferecidas ao meu pai e minha mãe, como oferta suave ao Senhor".
Vocês foram DEZ! MIL! Vocês são a melhor família que tenho. A Melhor Família do Mundo!
Sinceramente, OBRIGADO.

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