sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Minha Mãe, Meu Orgulho.

Há dias que desejo escrever sobre minha mãe. Passando o que passamos nestes últimos anos, tento dimensionar o que ela, especificamente, passou... e sofreu... e viveu.

Não escolhemos nascer, nem onde nascemos, apenas, nascemos. A partir daí, nossa opção é encarar a vida como ela é e fazer escolhas de menor importância, apenas na esperança de alcançar o propósito final de todos: “a felicidade”.
 
Minha mãe foi uma jovem, como outra qualquer, que desejava viver os sonhos juvenis de felicidade em sua realidade de vida adulta. Aos dezenove anos, recebe a visita de um jovem, Cazildo, que a deseja conhecer e casar.

Cazildo era do tipo “sem lenço, sem documento, nada no bolso, nem nas mãos”, mas, tinha coragem, boa conversa, não era preguiçoso, nem cafajeste. Sabia se comunicar e, naquele tempo, as mulheres simplesmente encaravam o candidato que conseguisse a autorização dos pais. Isto Cazildo conquistou e, assim, Valdete seguiu aquele itinerante para uma vida de alegrias, tristezas, desafios e sacrifícios (não, necessariamente, nesta ordem). Sem casa, sem móveis, sem nada... Apenas a coragem para, juntos, vencer os desafios que, nos dias atuais, são intransponíveis para a maioria dos casais.
 
Foram quatorze filhos, poucos recursos e, consequentemente, muito sofrimento. Como o velho trabalhava viajando por cidades, obrigando-o a ficar fora de casa por dias, minha mãe encarava, sozinha, a casa e a grande família. Racionamentos, fome, dificuldades mil que a levaram a encarar jornada dupla, tripla. Trabalho interno e externo, ajudando o marido na busca por recursos que possibitassem diminuição do sofrimento e ajudasse a família a seguir em frente. Neste particular, a fé em Deus foi preponderante para o sucesso.
 
O início de uma vida de sacrifícios, talvez, tenha sido menos difícil para D. Valda, porque não tinha a noção exata do que a esperava. No entanto, terminar relacionamentos sólidos, que passaram pela prova das dificuldades e dos sofrimentos e alcançaram o ápice do vínculo eterno de amor recíproco, é extremamente doloroso.

No caminhar desta família, alguns foram ficando pelo caminho. Cinco filhos e, recentemente, seu marido. E D. Valda...
 
D. Valda foi corajosa quando acompanhou Cazildo;
 
D. Valda foi destemida quando encarou o sacrifício de criar seus filhos e cuidar de seu esposo;
 
D. Valda foi ousada quando encarou as ruas para ajudar nosso pai na busca pelo pão-nosso-de-cada dia;
 
D. Valda foi altruísta quando, renunciando algo melhor que a vida poderia lhe dá, encarou se sacrificar em favor de outros (eu, meus irmãos e irmãs, e seu esposo);
 
D. Valda foi fiel quando jamais fugiu dos compromissos que assumiu, mesmo a custa de tanta dificuldade e sofrimento.
 
Vi minha mãe sofrendo na morte da garotinha Gersonita, vi minha mãe sofrendo na morte do jovem Elias e, por fim, vi minha mãe sofrendo na morte de nosso pai. Dos outros membros da família que deixaram nosso convívio não recordo. No entanto, dos três que acompanhei, nenhum dos dois se compara a despedida do meu pai.
 
O sofrimento para uma mulher que aprendeu a respeitar, a perdoar e amar um homem durante sessenta anos, e é obrigada a presenciar sua despedida da vida, chega a ser cruel, um martírio.
 
Durante esta trajetória, comentava com meus irmãos que o exemplo de nossa mãe era muito forte. Minha mãe foi uma guerreira, brava guerreira. Em momento de agonia, ela me dizia: “minha vontade é gritar!”, mas, ela controlava, se resignava, porque sabia que a referência agora era ela.
 
Sua família, suas crias, olhavam para ela e, de “boca caída”, festejavam a mulher terna, forte e de fé que Deus nos deu. Não a escolhemos. Foi Deus que, por sua graça, nos deu esta mulher como esposa, mãe, avó e bisavó. Por D. Valda afirmo: “Deus só nos dá coisa boa!”
 
A força que a família encontrou para estar com nosso pai em seus últimos dias, veio de nossa mãe. Mesmo debilitada por um AVC, ela não se eximiu de amar Cazildo até seu último momento.
 
Se pudesse, e ela quisesse, levaria minha mãe para morar comigo, mas, são tantas coisas envolvidas, tanta desconfiança, tanta insegurança, que é melhor deixar pra lá...
 
Agora nosso desafio é cuidar dela, é minimizar a perda irreparável e, no esforço máximo, lhe dá o máximo de conforto e alegria que a vida ainda pode lhe dar. Somos parte importante disso.
 
Um beijo mãe. Obrigado por ser quem és, e como és. Se minha vida interrompesse aqui, já teria valido a pena ter existido ao teu lado.
 
D. Valda tenho imenso orgulho de você!

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