quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

OS “NABABOS” DA RELIGIÃO

Nababos era um antigo título de nobreza ou autoridade na cultura indiana. Os que possuiam esse título eram reconhecidos pelo desfrute de riqueza e grande luxo. Apesar da situação antagônica do restante da população, essas pessoas não sentiam qualquer constrangimento em viver com grande pompa e ostentação. Seus carros, suas roupas, suas jóias, suas casas, enfim, todo um aparato que demandavam grande quantidade de recursos para tê-los e mantê-los.

Numa cultura que abraçasse o evangelho de Cristo, esse tipo de comportamento “seria” extremamente reprovável. Coloquei “seria” entre aspas, porque, infelizmente, não é o que se vê em nossas terras gentis, conhecidos como somos, povo cristão.

Acredito que Cristo está ruborizado com o que andam fazendo e conquistando em seu nome. Líderes que, de algum tempo, deixaram de comungar com a pobreza da mesa do comum, para, nababescamente, desfrutarem da mesa de Belsazar (Dn. 5:1-4). Convertidos à teologia da prosperidade, misturaram bênção divina com prêmio de Balaão, gerando um cristianismo materialista egocêntrico. Como conseqüência, se transformaram em magnatas da religião.

Como nababos, esfregam em nosso nariz, seus carros, suas casas, suas roupas, suas jóias e, tentando justificar seu hedonismo, apregoam terem sido abençoados por Deus, conclamando-nos a gritar em alto e bom som: “Glória a Deus!”, sem esquecer nossa obrigação de doar os recursos que possibilitarão a manutenção de seu modo de vida (ops!), da “obra de Deus”.

Fico, como ser humano cristão, envergonhado, ao ver a afronta dos que pedem nossa ajuda financeira, estendendo mãos cujos dedos ostentam jóias que podem, transformadas em dinheiro, matar a fome, por dias, de uma família inteira. Estão tão corrompidos pelo mundo que esqueceram uma das características da verdadeira religião. Como bem disse o apóstolo Tiago, é cuidar das viúvas e dos órfãos em suas necessidades e guardar-se da corrupção do mundo (Tg. 1:27).

Quanto dinheiro é torrado em viagens de turismo travestidas de missionárias; quantos recursos financeiros são jogados fora na aquisição de equipamentos inúteis para o labor cristão; quantos valores são desperdiçados com salários e ajuda de custo para uma crosta de sanguessugas que nada produzem em favor do reino de Deus; quanta renda é utilizada apenas para sustentar a vaidade de um carro de luxo, relógio de luxo, carteira de luxo, bolsa de luxo, casa de luxo, roupa de luxo, celular de luxo, enfim, lixos.

Ah! se olhassem e vissem Cristo. Moeda tirada da boca de um peixe apenas para pagar tributo seu e de seu discípulo, pães e peixes utilizados de um menino para fazer milagre, burrico emprestado para entrar em Jerusalém e salão cedido por alguém para a última ceia com seus discípulos. Depois, o peixe devolvido ao mar, os pães e peixes devolvidos ao garoto para seu lanche, o burrico devolvido ao seu dono, o salão esvaziado e restaurado ao seu proprietário, e Ele, o Filho de Deus, o Soberano, o Dono de todo ouro e toda prata, continuou andando a pé e dependendo do pão nosso de cada dia.

Ora, se aqueles que desfrutam dos salários pagos pelo suor do seu rosto, digo, aqueles que trabalham secularmente, devem atentar para o princípio cristão do compartilhamento (Ef. 4:28), quanto mais aqueles que são servidos pelo suor do rosto do outro. Homens e mulheres que manuseiam recursos advindos dos cristãos são responsáveis pelo seu uso observando o caráter e os princípios bíblicos que o norteiam.

Sendo assim, devem conservar em si “o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp. 2:5-8).

Como cristãos, temos alegria em colaborar financeiramente para que a “obra de Deus” prossiga em nossas terras anunciando o evangelho de Cristo, protestando contra o pecado, ajudando os mais necessitados e se insurgindo contra as injustiças sociais. Porém, não compactuamos com o quadro atual de líderes distantes do povo, encastelados em seus tronos de monarcas, amparados por seus alisadores de egos, insensíveis às injustiças sociais e apáticos quanto às responsabilidades que Deus lhes deu para cumprimento.

Indiretamente, nós, cristãos, somos responsáveis por eles, pois, lhes demos autoridade, liderança e dinheiro. A bem da verdade, que fique claro aos críticos do povo evangélico, nem Deus, nem Cristo, nem o Espírito Santo e nem nós, lhes concedemos autorização para achincalhar nossa pobreza e insultar nossa dignidade moral e espiritual. Os “nababos” da religião agem assim porque usurpam para si uma glória que, desde os tempos mais remotos até o futuro mais distante, pertence a Deus, não aos homens.

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