segunda-feira, 1 de junho de 2015

Que "Barulho" há no Céu?

Não, não tive nenhuma visão extravagante, não fui trasladado ao céu, não recebi nenhuma revelação sobrenatural, a não ser aquelas expostas na Bíblia Sagrada. Todas as minhas ponderações  sobre Deus, Jesus, Espírito Santo, céu, salvação, religião, comportamento, família, etc., nascem a partir do que leio nas Sagradas Escrituras. Por isto, tudo que ouço, leio ou tenho contato, passa pelo julgamento da Palavra de Deus. Principalmente aquelas coisas do mundo espiritual, invisível, sobrenatural.

Percebo, então, em algumas ministrações a ênfase dada ao fato de o céu não ser um lugar de silêncio. Tentando um certo drama, alguns chegam a vincular exclusivamente o silêncio ao lugar das tumbas frias - cemitério. Primeiro equívoco. Invariavelmente, esses ministros identificam o "barulho" como sendo aqueles histéricos e irritantes que ouvimos em alguns dos nossos cultos. Segundo equívoco.

O primeiro equívoco apontado acima é pelo fato de que o silêncio é o ambiente da contemplação (Sl. 27:4). Qualquer pessoa que deseja meditar, ponderar ou refletir sobre alguma circunstância, deve contar com um ambiente de silêncio ou, no mínimo, de "barulho contido". Até mesmo para uma oração eficaz, melhor é um ambiente onde se ouça a oração do que aquele onde ninguém entende ninguém, e contamos apenas com Deus para compreender o que tentamos falar. Não é este o silêncio de nosso quarto, por trás da porta, na oração individual recomendada por Deus (Mt. 6:6)?

O segundo equívoco é evidente na ideia preconcebida de que não há outro som que não seja o dos gritos histéricos da multidão emocionalmente alterada e induzida. O que dizer do som harmonioso de uma orquestra sinfônica, de um coral, de uma música executada respeitando-se suas nuances harmônicas, suas diferenças rítmicas e de intensidade?

Nosso problema é que, quem tem a palava da vez gosta de impor ao céu o ambiente que lhe agrada. Nossa tentativa é travestir o céu do ambiente em que nos sentimos confortáveis, é transformar a ideia do céu na ideia de nossas casas. No dia em que estiver ministrando alguém que goste do estilo "heavy metal", e este estilo esteja disseminado na igreja como o pagode, o samba e o axé dos dias atuais, ouviremos dizer que no céu há muito "barulho ensurdecedor".

Há, ainda, os equívocos provocados pela incompreensão de textos bíblicos. Por exemplo. Quando a Bíblia relata um evento envolvendo som que aconteceu num templo ou sinagoga, ou em derrubadas de muros de cidades fortificadas, ou em festas do povo hebreu, embasamos nossa ideia do ambiente no céu com a atmosfera criada nesses eventos. Pura confusão. Uma coisa é o que a Bíblia diz sobre o céu, outra coisa são as realizações dos homens na terra. Mesmo que seja uma pretensa adoração direcionada para o céu, lugar da habitação de Deus, o que se faz na terra não deve se confundir com o que existe nos céus.

Pelos textos que encontramos no livro de Apocalipse, a melhor ideia que possuímos (sem verdade absoluta, já que a "ideia" mencionada parte de minha "interpretação"), é a de uma orquestra sinfônica que, na execução de uma peça musical, enfatiza as nuances rítmicas e de intensidade. Não será por esta razão que João identifica o som como sendo "de muitas águas" e de "voz de trovão" (Ap. 1:15; 14:2; 19:6)? Destaque-se nas referências mencionadas os termos "como" e "semelhante", ou seja, nem João compreendeu direito o que era.

Quem já assistiu a execução de uma peça musical por uma orquestra consegue discernir o que falamos aqui. Mesmo nos ataques harmônicos amparados por bumbos e instrumentos graves, o som que ouvimos é o que nos enche a alma de gozo e alegria. Sim, no céu, há paz e alegria, não histeria e insensatez.

O apóstolo Paulo tenta regular nossos encontros na igreja, no capítulo 14 de sua primeira epístola aos Corintos. Apenas tenta. Nós, até hoje, insistimos em fechar os olhos e mente para compreensão do que ele diz no texto sagrado, porque não discernimos as coisas do Espírito e esquecemos da base racional de nossa fé. Sustentamos nossa percepção das coisas espirituais em experiências espirituais, supostamente, experimentadas por alguns. Paulo tenta nos fazer entender que o que fazemos, seja para Deus ou para os homens, deve ser com base em propósitos claros de edificação, adoração e pregação do evangelho.

Portanto, para contemplar sua grandeza e ouvir Deus, prefiro sentar á beira do mar e escutar o barulho das águas, invés de ouvir uma multidão que grita desesperadamente sem saber o que fazer e como fazer. Eles não se deixam ouvir os conselhos de Deus. Entram e saiem com os mesmas feridas, as mesmas dores e permanecem os mesmos. Talvez um pouco pior, por não perceberem que invés de ouvir o que diz a Palavra do Senhor, insistirem em perder tempo com o barulho de confusas interpretações da Bíblia.

Mesmo com o "barulho no céu" eu escuto Deus. E ele sara minhas feridas, cura minhas dores e me transforma. Ouço seus conselhos ditos à minha mente e coração, identifico o caminho a seguir e sigo para o alvo, deixando para trás os que insistem em convencer pelo grito.

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