Quem é Você? Um Título ou Um Servo?

Uma pessoa se converte a Cristo e passa a viver a experiência do primeiro amor. Dedicado a oração, consagração, estudo da Palavra de Deus, e sentindo uma chama ardendo no peito, entende o chamado comum à todos que se entregam a Cristo: "anunciar o evangelho e auxiliar os mais carentes em sua caminhada espiritual e material" (Mc. 16:15; Tg. 1:27).

Sem amarras e ganância, intrépido, se lança consciente de que, em Cristo, ele pode fazer. E faz. Passa anos assim, até que é visto pela liderança de uma organização religiosa, reconhecendo nele dom e talentos para desempenho daquelas nobres tarefas espirituais. Até aí, tudo bem.

Então, num dia qualquer, ele é apresentado à comunidade e passam a chamá-lo de "auxiliar" ou "diácono". A partir daí mergulham o pobre coitado em cursos preparatórios que, no disfarce de servir melhor à causa do Mestre, o treinam para servir a organização religiosa (podem chamar de denominação). Moldam sua mente à vertente teológica tradicionalmente definida pelo seu segmento religioso, e amarram sua liberdade as opções que lhes são disponibilizadas como as únicas verdades que devem ser aceitas (Martinho Lutero deve se revirar no túmulo, lembrando em seu silêncio o "só as Escrituras").

Uma grande confusão se estabelece na mente do "aprendiz de profeta", pois, já não consegue discernir claramente a diferença entre "servir a causa do Mestre" e "servir a organização religiosa". Em meio a tormenta mental, vai assimilando que auxiliar Cristo é o mesmo que servir os líderes da organização, passa a aceitar que "verdade" é o que dizem os homens sobre o "Filho do Homem" e não o que nos diz a Bíblia Sagrada. E assim segue, ainda com um resto de fé, crendo que todo seu esforço em agradar aos homens é porque Deus assim lhe pede (Lembra de Paulo dizendo para imitá-lo (1 Co. 11:1). Esquece apenas que isso só é correto quando os homens imitam "Cristo").

Aos poucos ele vai substituindo o tempo que dispunha para "anunciar o evangelho e auxiliar os mais carentes", por serviços auxiliares da organização religiosa que passa a pertencer. Vai trocando o "Reino de Deus" pelo reino dos homens e se torna um seu serviçal. Serve-lhes seu tempo, sua energia e seus recursos.

Pela "obediência" aos homens é reconhecido como "servo fiel", sendo assim, passa a estar apto ao "santo ministério". E então, num dia, em uma reunião solene de sua organização religiosa (Is. 1:13), ele passa a ser reconhecido como integrante do corpo ministerial ou corpo de oficiais. Intitulado de presbítero, evangelista ou pastor, estufa o peito em meio aos parabéns pela sua "merecida" (???) consagração.

Há anos que não sabe mais o que é um evangelismo pessoal, pois, resume sua trajetória evangelística a meras participações em reuniões administrativas ou cultos na comunidade; Há anos que não visita um enfermo, pois, sua relação agora é com pessoas curadas; Há anos que não sabe mais onde estão ou onde moram os necessitados, pois, não lhe sobra tempo para ir vê-los, haja vista que, agora, o "reino" que precisa cuidar e zelar é aquele travestido de organização religiosa. Agora, invés de procurá-los como antes, ele entende que os doentes e perdidos devem procurá-lo no templo, no gabinete, no dia e horário disponível em sua intensa agenda ministerial.

Um dia (sabe Deus), ele olha para trás e para dentro de si e percebe o que fizeram com ele. Sente que o primeiro amor se foi (Ap. 2:4). Dominado pela ganância, pelo medo de perder, de não ser, ele vive aprisionado pelo deus-templo. O Deus da Bíblia que o chamou não lhe diz mais o que fazer. Se tornou servo dos "guias", das "autoridades espirituais" que dominam sobre ele, dos "ungidos de Deus" que lhe dizem o que é "servir a Deus", a despeito do que dizem as Escrituras.

Encurralado pelas ameaças veladas da perda dos títulos, das honras, dos recursos, ele se entrega e lamenta. Comprado por lentilhas, lamenta ter trocado a primogenitura ("anunciar o evangelho e auxiliar os mais carentes em sua caminhada espiritual e material") e se tornado escravo dos homens.

E é assim que organizações religiosas retiram a "funda e as pedras da mão do pequeno Davi" e lhes vestem a "armadura de Saul". É assim que organizações religiosas "pegam uma pessoa, e depois de fazê-lo cristão, o tornam duas vezes mais réu do inferno" (Mt. 23:15). E quem nos salvará?

Acredito na graça de Deus. Ela é a única que, justificada na misericórdia divina, poderá salvar aqueles que com pouca força e pequena fé, mesmo envolvido nestas infrutíferas organizações, tentam respirar e contrariar o ambiente. Remando contra a maré, corajosamente se levantam em defesa do reino de Deus e sua justiça.

Quem é Você? Um Título ou Um Servo?

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