quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Quem Conhece o Pai, São os Filhos; Quem Conhece o Marido, é a Esposa; Quem Conhece o Obreiro, é Sua Família. "Testemunho de Um Filho na Despedida de Seu Pai'.



Foram 48 anos de convivência que me possibilitaram nascer, crescer, educar e amadurecer. Nesse tempo, convivi com um homem dedicado, amável, às vezes, sisudo, duro, mas, em todo tempo, responsável pelo bem estar de sua família. Um verdadeiro Pai de Família.
 
Meu pai foi um cristão autêntico. Obreiro destemido, extremamente dedicado a obra do Mestre desde os tempos em que, no interior do estado da Bahia, percorria longas distâncias, andando, para anunciar o evangelho, apenas com objetivo de atender seu chamado. Sem cargos suntuosos, sem apoio logístico ou financeiro, sem servos, apenas um discípulo movido pelo desejo de cumprir a ordem do seu Mestre. Nos últimos anos, vivia à expensa da aposentadoria como funcionário público federal, evitando, assim, ser pesado para a igreja que servia, mesmo tendo ocupado função de liderança em várias igrejas no interior e na capital de nosso estado.

Perto de meu pai, fico envergonhado pelo tipo de obreiro que sou e pela maioria dos que conheço.

Meu pai não foi um cristão perfeito, foi um cristão sincero que levou até as últimas consequências sua conversão e os princípios expostos na Bíblia que passou a acreditar. Diante daquilo que considerava erro, "à luz da Palavra de Deus", como costumava dizer, repetia como um mantra o texto de Isaías 5:20: "não sei chamar o amargo doce". Em sua sinceridade pode ter cometido muitos erros, mas, nada era mais forte em sua vida do que a coerência entre o que acreditava, o que falava e o que fazia.

Desde que teve conhecimento do câncer de próstata, e ao longo dos oito (08) anos de tratamento, meu velho não se acovardou. Apesar da angústia e do sofrimento que, sabíamos, existir, jamais o vi, ou ouvi, reclamar sua condição ou enfermidade. Nunca baixou a cabeça. Ao contrário, transmitia para sua família a serenidade de quem sabia quem era seu Senhor e de quem sabia que tudo estava sob controle do Pai das luzes.

A tranquilidade e a serenidade de meu pai era tanta que o sofrimento só nos atormentava quando estávamos longe dele. Foi esta a força que nos encheu o coração e nos condicionou a estar ao seu lado até o último suspiro. Quando a medicina não pôde mais lhe oferecer ajuda, nos juntamos e assumimos: "agora é conosco". Esposa, filhos, filhas, genros, noras, netos, netas, bisneta, todos, cada um do seu jeito, com as forças que possuia e com o coração ardendo em amor, nos revezamos vinte e quatro horas por dia ao seu lado. Carregávamos, amparávamos, alimentávamos, enfim, como ele várias vezes, anos seguidos, fez com cada um de seus filhos e filhas, fizemos com ele em seus últimos momentos. Lógico que, nesta equação, ficamos devedor.

Meu velho se foi aos 89 anos de idade. Jamais ficou só. Viveu sessenta (60) deles ao lado de sua fiel companheira, irmã Valdete do Rosário e, no ato final de sua existência terrena, às 00hs do dia 06 de agosto de 2013, a casa estava cheia. Em seu leito, uma filha abraçava sua cabeça, um genro segurava sua mão, uma neta amparava seus pés, um vizinho cristão balbuciava uma oração.

Eu, fiquei ali, em sua frente, e apenas olhava. Minha expectativa era que meu velho, outra vez, daria a volta por cima e se levantaria acalentando todos nós. Torcia desesperadamente por uma nova força, um novo ar, um novo milagre. Não deu. Seu semblante, aos poucos, foi se modificando... Percebendo que o fim se aproximava, baixei a guarda e ele suspirou pela última vez. Curvei-me sobre seu corpo e chorei.

Ele se foi. Fechei seus olhos entreabertos e tudo parou. Seu quarto, que nas últimas semanas era o centro do movimento, do cuidado e da vida, deu lugar ao silêncio e a morte. No restante da casa, choro, lágrimas, e a certeza de que o fim, tantas vezes adiado, aconteceu.

Agora nos restou apenas respirar fundo e tentar conter aquela enxorrada de sentimentos que tentavam nos jogar no fundo do poço da desilusão e do descontentamento. Entretanto, aos poucos, fomos e vamos recordando seus ensinamentos, seu sorriso, sua presença grave que nos transmitia segurança e sua voz contundente que, diuturnamente, nos fazia lembrar que o fim terreno para o cristão é apenas o começo. O começo de uma eternidade em paz e com vida abundante.

Antes de ser pastor, obreiro, e até mesmo cristão, meu pai foi HOMEM. Homem de palavra, Homem honrado. Deixou um legado de fé em Jesus, fidelidade á Deus e seu povo, e perseverante firmeza na verdade.

Descanse em paz, meu velho. Por aqui, acalentaremos a saudade com a esperança de, em breve, nos vermos de novo.

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